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por Bianca Britton, CNN

O Destino de Surf Improvável do Mediterrâneo: Líbano

Ao largo da costa mediterrânea do Líbano encontra-se uma cidade à beira-mar que os moradores chamam de "playground de 7 quilômetros".

Conhecida por suas praias de areia, a antiga cidade praiana de Jiyeh é uma raridade ao longo do país de costa rochosa. Lá, você encontrará uma pequena comunidade do surf. Enquanto o Líbano pode não ser uma escolha óbvia como um destino de surf, sua popularidade está crescendo. Suas ondas são modestas, mas a paixão da comunidade é forte.

"As pessoas não acreditam que no Mediterrâneo há tanta onda", disse Paul Abbas à CNN. Abbas diz que ele é o único shaper de pranchas do Líbano. Temos uma quantidade decente de dias de surf e acho que temos ondas de boa qualidade ... e a coisa boa é que podemos surfar o ano todo".


Picos de surf do Líbano - foto: Google Earth

Abbas viu uma oportunidade no mercado de surf do Líbano em 2010, quando se interessou pelo esporte depois de pegar onda de bodyboard por muitos anos. Ele diz que se esforçou para encontrar pranchas de surf na região e que a maioria dos surfistas - que faziam parte da pequena comunidade na época - foram forçados a importá-las do exterior. Frustrado por isso, Abbas consultou o YouTube para aprender a fazer as suas próprias pranchas.

A partir daí, e depois de mais prática, ele começou a fazer artesanalmente mais e mais pranchas de surf e, eventualmente, criou seu próprio negócio - P.A. surfboards - para a crescente comunidade de surf libanesa.

"As pranchas ficaram melhores especialmente quando comecei a aprender sobre a física do surf - o que as faz trabalhar em certos tipos de ondas, e comecei a ajustar meus projetos", diz ele.

Desde 2010 ele fez mais de 100 pranchas na casa de sua família. E enquanto ele ainda trabalha em tempo integral como técnico de uma organização de TV, ele diz que graças ao boom do surf do Líbano sua paixão criativa pela construção de pranchas de surf pode em breve se tornar seu trabalho principal.

"O número de surfistas está realmente crescendo rápido agora e essa é uma das razões pelas quais minha produção está aumentando. Quando eu comecei, eu nunca teria acreditado que poderia viver disso - não era o meu objetivo ... Mas eu tive a sorte de começar naquela época, porque o mercado (para vender pranchas) está quase saturado."

De praias desertas a uma vibrante comunidade de surf

O surf não é novo para a região, diz Abbas, lembrando de uma comunidade de surf que existiu na década de 1970 antes da guerra civil libanesa. Ele disse que as praias ficaram desertas durante a guerra. No entanto, agora o surf tornou-se cada vez mais popular entre os locais - especialmente nos últimos dois anos, com a sua comunidade aumentando para 200 surfistas.

A surfista de 25 anos, Sonia Lynn Gabriel é uma deles. Ela diz que enquanto as ondas do Líbano podem ser imprevisíveis, Jiyeh é seu pico favorito - uma vez que tem as ondas mais consistentes. A praia tem cerca de 7 quilômetros de comprimento, e possui água limpa e recifes rasos - que geram ondas atraentes.

O país tem outros picos populares, como Batroun, Tiro e Byblos. Mas é no norte do Líbano que existe um pico que os moradores gostam especialmente - chamado  de "Chekka". Ele quebra apenas algumas vezes por ano e fornece uma onda de direita sobre um fundo arenoso que começa a partir de um molhe durante grandes swells.

"A direção que o swell entra no Líbano é realmente aleatória", diz Sonia, acrescentando que às vezes os surfistas podem experimentar semanas sem surf.


A surfista libanesa Sonia Lynn Gabriel - foto: Mohamad Chehmi

Mudança na cultura libanesa

Sonia diz que ela viu uma mudança na maneira como os libaneses interagem com o seu litoral. "Nós amamos quando os libaneses vêm mais para perto da água. Nós estamos observando que não é somente o surf, mas tem muitos outros esportes aquáticos" ela diz.

Ela acrescenta que, apesar do Líbano ter um litoral rico, os esportes aquáticos não eram tão populares anteriormente em sua cultura. "O povo libanês vai à praia, mas eles comem na praia ou fumam Argileh (hooka). Eles não são realmente o tipo de pessoas que estão ao ar livre para fazer coisas".

Sonia diz que muitos libaneses não sabem que é possível surfar no Líbano. "As pessoas ficam chocadas quando lhes dizemos que surfamos aqui e que no inverno vamos surfar", explica ela. "Eles vêem isso como algo tropical e muito exótico. É um esporte que realmente nos une, não é como na Austrália ou em Bali, onde há tantos surfistas", diz ela, "Se houver um novo cara ou uma nova garota, nós saberemos, porque não tínhamos visto ele ou ela na água antes, então nós vamos conversar com eles e recebê-los na comunidade. É um esporte que realmente une as pessoas ", acrescenta ela. "É uma comunidade muito legal e o ambiente é realmente pacífico".

A determinação de um refugiado sírio em se tornar um surfista

O surf também despertou o interesse dos refugiados sírios do país - particularmente Ali Kassem, de 17 anos. O Líbano acolhe mais de um milhão de refugiados sírios, de acordo com o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) - um número notável para um país de apenas 4 milhões de habitantes. Kassem foi visto pelos surfistas locais vagando pela costa um dia com nada mais do que uma placa de isopor, que ele tinha cortado grosseiramente na forma de uma prancha de surf com uma faca.

Antes dele entrar muito no mar, ele foi chamado de volta por surfistas que, em seguida, ensinaram a ele sobre os perigos de surfar sem o devido equipamento. Kassem disse à CNN que ninguém iria impedi-lo de ir surfar. "No começo eu estava com medo e nervoso, mas ao mesmo tempo eu estava animado porque eu (tinha) desenvolvido um amor pelo surf sem sequer tentar. "Eu realmente queria surfar." Ele diz que o surf mudou a sua vida. "Eu sou livre para ser eu mesmo na água... surfar é a minha meditação."

Em 2014, a Associação Internacional de Surf (ISA) reconheceu formalmente o Líbano pelo seu surf. E enquanto ninguém do país ainda não participava de competições internacionais, Kassem espera mudar isso tornando-se não somente o primeiro surfista profissional do Líbano, mas também o primeiro a vir da Síria.

Traduzido da CNN

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