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Brasil

Do Nordeste ao Sudeste: 10 anos da handsurf trip!

Letícia Parada

10 anos de uma viagem de carro pelo litoral brasileiro que a galera do handsurf de Alagoas fez, com intuito de promover essa modalidade.

Ano passado, a convite do Handsurf Clube, viajei para Alagoas a fim de conhecer o handsurf de Alagoas pessoalmente. Lá ouvi muitas histórias sobre a criação do esporte, campeonatos e etc. Mas uma das histórias que me chamou a atenção foi sobre uma trip, onde grandes nomes do handsurf de Alagoas viajaram de carro pelo litoral do Brasil. No dia 10 de outubro deste ano, essa aventura completará 10 anos e ela foi muito importante para a disseminação da modalidade nos outros picos do nosso país. Alberto Mariano, um dos pioneiros do handsurf de Alagoas, conta abaixo um pouco sobre o que rolou nessa trip.

“O ano é 2010, a cidade é Maceió, a capital de Alagoas. Eis que eu, Alberto Mariano, recebo uma visita de surpresa do amigo Sebastião Corrêa (conhecido como “Bastos”). Depois dos cumprimentos ele me falou animado “Bel, o seu carro está bom para viajar?”. Pensei um pouco e falei “Cara, de motor está bom, mas tem dois pneus um pouco gastos que eu já estou para trocar e precisa também dar uma olhada na suspensão. Por quê? Qual é o plano?”. Ele, sorrindo como sempre, respondeu “Vamos sair daqui e ir até Floripa surfando, vendendo palmar (prancha de handsurf), divulgando o esporte e o campeonato que faremos em Noronha ano que vem, tudo isso sendo filmado para produzir um filme?”. O campeonato a qual Bastos se referia viria a ser o II Campeonato de handsurf e bodysurf Noronha 2011, o clássico das modalidades. Bem, não pensei muito na proposta dele e respondi “Claro! Vamos conversar”. E assim demos início a uma grande aventura descendo a BR 101 em um carro Gol 1000 em direção ao Sul do país. Juntaram-se a nós o amigo Pedro Benigno para ficar responsável pelas imagens e o handsurfer veterano Léo Curren, nosso amigo de longa data que pediu demissão do trabalho já que o chefe de seu trabalho não quis adiantar suas férias. Bastos já tinha tudo “planejado” e comprou por um bom preço 60 pranchas de handsurf na oficina Surfciente do nosso amigo Agildo pontes. Além disso, Bastos conseguiu o apoio das sandálias Ipanema e a promessa de alguém da Globo de que seria feita uma matéria com a gente quando chegássemos ao Rio.

No dia 1 de outubro de 2010 saímos de Maceió rumo a primeira parada: Salvador,  Bahia! Mas antes de chegar lá, entramos na praia do Forte onde passamos o dia mostrando as pranchinhas de handsurf nas lojas e tentando vendê-las na rua. Conseguimos vender 3 pranchas e seguimos viagem. Chegando em Salvador, fomos recebidos por Fabiano França, amigo de Maceió que morava há 8 anos em Salvador e que nos acolheu em sua casa. Mesmo sem ter muita onda na cidade fomos todos os dias na praia do Barravento e em outros picos surfar o que tinha. Encontramos a galera local, o Cristiano, Adonildo (Ceará), Wellington Guimarães, entre outros. Surfamos, filmamos, conversamos bastante e fortalecemos os laços de amizade durante uma semana. Salvador foi lugar onde deixamos algumas pranchas e saímos com novos amigos.

Já tínhamos o destino da próxima parada. Era a vez de conhecermos o Espírito Santo, mais precisamente a praia do Barrão em vila velha. Lá fomos recebidos pelo bodysurfer local Danilo Bacurau, que apenas o Bastos conhecia por Facebook. Danilo dispensa comentários, ser extremamente humilde e gentil. Fez questão de nos deixar à vontade, foi para a casa de sua namorada e deixou seu próprio lar à nossa disposição. Por sinal, chegamos por lá no dia 08 de outubro, era uma sexta feira e no dia 10 ia acontecer uma etapa do Circuito Capixaba de Bodysurf. Então eu (Alberto Mariano) e Léo fizemos nossas inscrições para participar do evento, o que para nós foi a primeira competição de bodysurf que participamos e de cara Léo ficou em 6º lugar e eu fiquei em 5º. Fizemos também um surf de 20 minutos durante um intervalo da competição para demonstrar o handsurf de Alagoas, que foi muito bem visto e teve a simpatia de todos. Gravamos até uma matéria para a TV local, falamos ao vivo em uma rádio comunitária, conhecemos as principais pessoas que praticavam o bodysurf por lá. Somos muito gratos a todos os locais como Paulo Borges (Paulão), Jones Duarte, João foca, Fernando Rossette, Maicon (Golden Eagle), Abraão, Marcos e a galera que faz parte da Escolinha de Bodysurf Peitury. Surfamos um pico muito bom chamado pico da Belina com ondas longas para a direita, vendemos mais algumas pranchas e nos despedimos de Vila Velha com o dever cumprido rumo a próxima parada: Rio de Janeiro. Por motivos pessoais e de família, Pedro teve que voltar para Maceió e por isso seguimos viagem apenas eu, Léo e Bastos.

A chegada ao Rio foi um momento tenso. Já passava das 17 horas quando entramos na ponte Rio-Niterói, estávamos escutando música com o volume alto e de repente me dei conta de que estávamos entrando na “Babilônia”... carros em alta velocidade, várias faixas de veículos indo no mesmo sentido e etc. Imediatamente desliguei o som e pedi para ficarmos atentos às placas para não errarmos o caminho. Nosso destino era o apartamento de Rodrigo Bruno, em Copacabana. Depois de algumas ruas erradas chegamos ao destino em segurança e fomos recebidos por Rodrigo em seu apartamento com muita alegria, entusiasmo, carinho, respeito e curiosidade. Isso nos deixou felizes e impressionados, pois não nos conhecíamos, apenas o Bastos tinha feito contato com Rodrigo pelo Facebook. Mas era como se já nos conhecêssemos há muito tempo e me lembro até de Rodrigo dizendo “é assim porque somos todos irmão do mar”. Outro cara super importante em nossa estadia no Rio foi Marcelo “Cabelo”, que durante uma semana acolheu o Léo em sua casa e se tornou mais um grande amigo que fizemos nessa aventura, a quem somos também eternamente gratos. Algo precisa ser dito: a jornada no Rio começou com uma decepção. O cara da Globo que tinha prometido fazer uma matéria conosco simplesmente nos ignorou chegando a dizer que não tinha nos prometido nada. Foi bastante esquisito tudo isso e deu uma baixa no astral já que vínhamos pensando nisso durante toda a viagem, onde inclusive falamos com ele durante a nossa passagem por Vila Velha avisando que estávamos chegando. Mas tudo bem, somos responsáveis por nossas atitudes e não pelas atitudes dos outros. Assim tratamos de aproveitar nossa estadia na cidade maravilhosa e demos sorte com as ondas, pegamos picos como São Conrado, Diabo, Recreio e Barra dando altas ondas, Fizemos a cabeça surfando e apresentando o handsurf de Alagoas, além de termos feito visitas a lojas de surf na tentativa de vender as pranchinhas. A nossa “equipe” de handsurf ganhou o reforço de Jônatas Lins, experiente handsurfer que se juntou a nós vindo de avião de Maceió. Passamos três semanas no Rio, duas na casa de Rodrigo Bruno e Marcelo Cabelo, e uma na casa de Nedda de Luna amiga carioca que morou em Maceió por muitos anos, tendo sido inclusive Presidente da então Associação Alagoana de Handsurf. Nosso primeiro surf em São Conrado teve uma história muito bacana. Chegamos na praia com sombreiro, mochilas nas costas e fomos o tempo todo observados por uma galera que estava na areia, entre eles um cara mais franzino e mais baixo que os outros. Achamos um lugar legal para colocar o sombreiro, um pouco afastado de todos e começamos a tirar as coisas das mochilas. Quanto tiramos as nadadeiras e as pranchinhas de handsurf o cara mais franzino se aproximou e já foi falando comigo “Fala brother, qual é a dessa galera? De onde vocês são?”. Já fui então me apresentando, falando de onde éramos e a conversa rolou. O cara era conhecido com Nego Véio, um dos mais respeitados bodysurfers do pico, nordestino vivendo no Rio há muitos anos. Conversamos por uns 20 minutos sobre bodysurf, Nordeste, São Conrado, Rocinha e antes de entrar no mar perguntei se era tranquilo surfar ali, se rolava localismo ou não e ele respondeu “Tranquilo irmão, qualquer coisa fala que é GBS”. E foi embora sem explicar o que era GBS, aliás só fomos saber quando voltamos para casa e Rodrigo nos explicou: GBS significava Galera do Bodysurf, uma sigla que identificava os bodysurfers locais mais casca grossa de São Conrado.

A ideia inicial era irmos até Florianópolis, mas no Rio de Janeiro o dinheiro acabou e pelos nossos cálculos deveríamos voltar. Nossa passagem pela cidade maravilhosa se aproximava do fim e tínhamos a certeza de que tínhamos feito o melhor que podíamos. Surfamos, divulgamos o nosso esporte e o campeonato em Noronha onde foi possível, além disso, conhecemos uma galera, vendemos algumas pranchas e era chegada a hora de voltar. E tínhamos toda estrada de volta pela frente até chegar em Maceió. O Rio de Janeiro foi massa, foi onde conhecemos muitas pessoas do bodysurf e fizemos vários amigos. 

Nos despedimos do Rio de Janeiro e da viagem com uma mistura de satisfação e frustração. Satisfação por ter realizado essa viagem e ter feito o máximo para divulgar o handsurf de Alagoas. A frustração era por conta de algumas coisas terem dado errado, como por exemplo a venda das pranchas. O Bastos achou que venderíamos bem ou faríamos contato com lojas que se interessassem em revendê-las, mas isso não aconteceu e vendemos umas 15 pranchas no total. Mas uma coisa era certa entre nós: tudo tinha valido muito a pena e faríamos tudo de novo em nome do handsurf de Alagoas. As amizades que fizemos há 10 anos nessa viagem duram até hoje e isso não tem preço. Tivemos a constatação de que somos unidos pelo esporte e pelo amor ao oceano. Fomos muito bem recebidos e respeitados em todos os lugares por onde passamos. Na volta para casa ainda teve falta de gasolina na estrada, dormimos dentro do carro estacionado entre os caminhões em um posto de combustível e visitamos Itacaré, pico de surf tradicional no Sul da Bahia. 

No mais temos de agradecer a muitas pessoas que nos ajudaram nessa aventura. Em Salvador: Fabiano França, o Rasta, vocalista da banda A máquina do mundo, por todo o suporte na capital baiana. No Espírito Santo: Danilo Bacurau por ter nos cedido sua casa em Vila Velha; Restaurante Bregas da família da pentacampeã mundial de bodyboard Neymara Carvalho, que nos forneceu alimentação em Vila Velha; Maicon dono da marca Golden Eagle que nos presenteou com camisas e bonés; João foca e Paulo Borges por todo o suporte. No Rio de Janeiro: Rodrigo Bruno, Marcelo Cabelo e Nedda de Luna por nos acolherem em suas casas; A fotógrafa e amiga Olívia Moreth por nós acompanhar e fotografar algumas das nossas caídas de handsurf. Agradecimentos especiais a Agildo Pontes pela parceria de longa data e confecção das pranchas de handsurf e as sandálias Ipanema que nos ajudou com as despesas. E, claro, à Deus por ter nos guiado em todo o nosso percurso, do Nordeste ao Sudeste. Aloha!

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