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Florianópolis - Santa Catarina - Brasil por Guilherme Pallerosi

Entrevista com shaper Felipe Siebert: a fina marcenaria das pranchas hollow

Nos anos 30 uma nova tecnologia em pranchas balançou o mundo do surf, eram as Hollow craft boards. Ao invés das pesadas pranchas de surf havaianas de madeira maciça, inventou-se uma prancha de madeira oca por dentro.

Até então, o surf era um esporte exótico, praticado em alguns poucos lugares no mundo, mas estas pequenas inovações contribuíram para disseminação e evolução do esporte. 

Atualmente, um seleto grupo de pessoas vem percorrendo o caminho contrário desta evolução, desenvolvendo um mercado de pranchas de surf muito distinto, mas com um público maduro em busca da essência perdida de um esporte ancestral. 

Felipe Siebert, nascido e crescido no litoral catarinense é um representante deste nicho no Brasil. Desde 2004, quando fez seus primeiros experimentos com pranchas de madeira, vem consolidando a marca Siebert Woodcraft Surfboards no mercado nacional, junto do seu irmão Fábio e outros parceiros. 

A Siebert fabrica pranchas de madeira com ótimo desempenho nas ondas, mas que vão muito além, impregnadas de história e um estilo de surf que remete à raiz do esporte. Conversamos com este shaper-marceneiro para saber sobre seu trabalho, inspirações e ideais:

M&A: Você vive em de uma região com praias lindas, ótimas ondas e muito surf no currículo. Mesmo assim, sendo este o país do futebol, acho muito curioso a trajetória de pessoas que empreenderam carreiras como a sua. Então, vamos à gênese:

Quando começou sua história com o surfe?

Siebert: Antes de tudo, a visão que tenho do surf, também se reflete no futebol. Até algumas décadas atrás a “arte” de jogar, a habilidade dos jogadores, se destacava mais do que o dinheiro e o marketing. O surf parece ter pendido para o mesmo lado, com a hegemonia das grandes marcas, etc. 

Eu gosto de futebol, mesmo tendo total consciência do que acabou se tornando, ainda sim, vou aos jogos para ver os detalhes, a habilidade dos jogadores, a arte, não importa quem ganha, ou os pontos no campeonato. O mesmo acontece quando vejo o WCT: não me importo com o resultado das baterias. Assisti algumas etapas em Imbituba e gostava de me posicionar no costão vendo as ondas de frente, mas não dava para saber quem eram os vencedores, o que realmente não fazia a menor diferença para mim. Gosto mesmo é de ver a onda e a habilidade dos surfistas, mesmo sabendo que eles estão limitados pelas manobras solicitadas pelos juízes. 

Mas voltando a pergunta: Passei todos os verões da minha vida na região de Laguna, Farol de Santa Marta. Sempre estive na água, mas comecei a surfar com pranchas de surf, em pé, somente com 19 anos (bem tarde para a maioria). Como iniciante, fui influenciado pelo que ocorria ao meu redor, que era o surf de shortboards, mas sempre estive de olho numa prancha do meu tio que estava “aposentada”. Ficava em cima do armário da minha vó, até que um dia ela permitiu que eu botasse na água. Era uma das primeiras pranchas de Santa Catarina, shapeada pelo Machucho nos anos 70, uma monoquilha, com um stinger e umfish tail. Todo mundo achava estranho, mas eu me divertia com essa prancha e fui pegando o gosto por pranchas “estranhas” enquanto todos queriam apenas ser o Kelly Slater.

M&A: Normalmente a primeira prancha de um shaper possui um valor muito especial, trata-se de uma realização pessoal. Daí para se tornar um profissional exige trabalho árduo, talento e certa dose de sorte ao longo do caminho.

Fale sobre como um hobby se tornou negócio?

Siebert: Não tenho muito apego as coisas que faço. Apesar de gostar e achar bonito, para mim parece fácil fazer e acabo não dando muito valor. Fico realizado mesmo fazendo algo que deixe as pessoas felizes, ou ver alguém surfando com as minhas pranchas e sorrindo. 

A parte “árdua” acaba sendo relacionada aos prazos, imprevistos na produção e detalhes administrativos e burocráticos, mas não tenho do que reclamar. Iniciei a minha a primeira prancha, sem nenhuma pretensão, nas férias da faculdade e posteriormente fiz outras para alguns amigos. Aos poucos recebi novos pedidos e percebi esta lacuna nas pranchas produzidas no Brasil. Comecei a estudar mais a fundo os shapes, a história e tudo que estava relacionado a estas pranchas. Apesar de o público ser bem especifico, ele existe. Então foi um caminho natural.

Felipe Siebert surfando em um dos seus clássicos longboards. Foto: Fábio Siebert

M&A:Tem gente que escolhe a profissão pela grana, outros escolhem por vocação ou estilo de vida. A profissão de shaper parece uma daquelas carreiras que todo surfista sonhou um dia, mas nem tudo é o que parece.

Fale do seu dia a dia, como é a rotina do seu trabalho? Consegue conciliar qualidade de vida com o ofício de shaper e a carreira de empresário?

Siebert: Nem tudo é o que parece. Em relação aos outros shaper, eu ainda considero que tenho regalias. Fazer pranchas é uma profissão muito dura e agressiva. Exige muito da parte física e para ter uma condição de lucratividade razoável, o volume de pranchas tem que ser grande, pois a margem é baixíssima. Acho que o glamour leva muitas pessoas a iniciar nesta profissão, mas muitos que tem a possibilidade de conseguir algo financeiramente melhor, não perdem a oportunidade de sair do mercado.

Felizmente acredito que fizemos uma boa opção, desenvolvendo uma variedade de produtos, o que faz não dependermos somente das pranchas. Nos últimos anos consegui encaixar uma rotina razoável, onde trabalho 60% do tempo no computador e 40% na fábrica. Faço toda construção dos esqueletos das pranchas, a colagem, e um dos meus parceiros fecha as bordas e faz o pré-shape. Eu finalizo os acabamentos e levo para laminação, que é terceirizada. Os demais produtos eu atuo mais no desenvolvimento e alterações de projeto e meus parceiros replicam os projetos. Eu cuido da compra de todo material, e o meu irmão, Fábio Siebert, que é designer, cuida do site, loja virtual, comunicação, venda de outros produtos, etc. Nossa equipe é excelente. 

Quando não preciso estar na fábrica, posso ficar um pouco na praia, surfar algumas horas e usar o tempo restante do dia para trabalhar no computador.

M&A: A Siebert constrói as chamadas hollow wooden surfboards, isto é, pranchas de surf feitas de madeira com uma estrutura oca por dentro, técnica desenvolvida na década de 1930 pelo lendário Tom Blake. Atualmente é raro encontrar pranchas de surf feitas com esta técnica e qualidade de acabamento.

Você pode nos contar como aprendeu a fazer estas pranchas de surfe? Possui um mestre na arte de shaper-marceneiro, ou foi o processo autodidata de tentativa e erro?

Siebert: É uma prancha difícil de fazer na qualidade necessária para ser funcional. Foi um processo praticamente autodidata. Na época estava pesquisando para comprar um longboard de balsa, quando descobri as Hollows produzidas pelo Tom Wegener, Grain e Paul Jensen. Consegui ver algumas fotos e foi nisso que me baseei para desenvolver o projeto para tentar construir uma, já que as de Balsa que achei, estavam bem fora do meu orçamento de estudante. 

De certa forma. acho que fiz um bom projeto já no primeiro modelo e posteriormente fui aperfeiçoando. Felizmente os erros não foram tantos. Posteriormente fui testando os extremos de resistência, leveza e outros, e atualmente sabemos os limites construtivos e materiais adequados. Sabemos onde devemos reforçar a prancha onde podemos reduzir peso, o tipo de madeira, resina, etc. A parte que mais custamos para chegar num bom nível foi na parte de laminação.

M&A: Desde a identidade visual da marca, às curvas das suas pranchas de surfe, podemos perceber que existem referências no seu trabalho.

Existem pessoas que inspiram o seu trabalho? Quem são teus ídolos, seja dentro ou fora do universo do surf?

Siebert: Fiquei muito feliz quando conheci o Greg Noll numa feira de surf em SP e pude ver uma das pranchas que ele (ou o seu filho Jed Noll) fez, réplica de uma Da Cat. 

Estudei bastante as dimensões de prancha da década de 50 e 60 e admiro muitos dos shapers daquela época. Não tenho grandes ídolos e não costumo idolatrar as pessoas, mas é certo que admiro a forma que algumas pessoas vivem e trabalham e que me causa grande admiração. 

Por exemplo, admiro Dan Malloy, Chris Malloy e vários anônimos que aparecem nas suas produções cinematográficas, pessoas com uma vida simples, mas que se dedicam a algo que as fazem extremamente felizes. Tom Wegener, Brian Bent, para citar alguns que tem muita personalidade e que são grandes artistas. Mas a lista é grande demais, mesmo ficando somente no campo do surf. Outro exemplo é Dale Velzy, como empreendedor de algo que não existia (fabrica de pranchas), mas tem muitos outros destemidos que enfrentaram ondas desconhecidas e que só sabemos disso devido a pessoas como Bruce Brown... Daria para escrever muito. 

Tenho especial admiração por pessoas que dedicam décadas às artes perdidas, trabalhos manuais que atualmente são confeccionados por maquinas, artistas anônimos, escondidos nos seus ateliês mundo a fora, perpetuando artes que em breve deixarão de existir. Vejo excelentes vídeos sobre pessoas assim no etsy.com (para entender melhor estas inspirações, veja estelink, e este aqui).

M&A: Além do fato de serem feitas de madeira, podemos notar que o quiver das pranchas Siebert valorizam modelos retrôs de diferentes épocas, como os longboards clássicos, monoquilhas, fish e mini-simmons. Estas pranchas permitem um bom desempenho nas ondas, mas muito diferente daquele visto em campeonatos, são ideais para um surf mais “soul”, isto é, com mais estilo e menos “performance”.

Existe uma busca pessoal expressa de alguma forma nas tuas pranchas? O que te levou a resgatar técnicas e modelos áureos das pranchas de surf?

Siebert: Sempre dei muita importância para parte de shape, mais até do que o fato de ela ser de madeira ou de qualquer outro material, pois apenas fazer algo esteticamente bonito não bastava, seria uma prancha sem valor se não tivesse funcionalidade na água. 

Os longboards são os astros, sempre. A meu ver, a comparação destas pranchas, ou mesmo do surf proporcionado com elas, em relação ao surf progressivo deve sequer existir. O longboard clássico, principalmente, é outro esporte. Já vi profissionais de surf de performance subirem num longboard parecendo um completo amador, iniciante no esporte. Ele exige outro raciocínio, posicionamento dos pés e do corpo. É um surf que precisa apenas técnica, exige muito pouco da parte física, principalmente se a técnica do surfista for apurada. 

Tanto as pranchas que fabrico, como os demais produtos, tiveram origem por gosto pessoal, e minha busca pessoal, relaciona-se à tentativa de conservar este tipo de surf vivo, manter aquelas pranchas vivas. Em termos de diversão dentro da água, considero as pranchas que eu faço grandes invenções da sua época, pois não deixou nada a dever aos modelos novos, tanto é que são reproduzidas até hoje por funcionarem bem. Então é o tipo de coisa que foi inventada da forma mais perfeita. 

O meu trabalhado atualmente é sempre buscar novas matérias primas e técnicas de construção.

M&A: As pranchas hollow de madeira são belíssimas, isto é fato, mas pouca gente conhece ou já experimentou este modelo.

Quais os diferenciais destas pranchas de surf? Elas têm uma durabilidade maior? 

Siebert: São mais duráveis sim. Tem uma grande vantagem que é não amassar. É claro que não são indestrutíveis e já vi alguns casos de danos nas quilhas, por exemplo. É um ponto que nos últimos anos trabalhamos bastante para criar um conjunto que seja resistente por igual. Antes da laminação, a quilha já é fixada no interior da prancha. O fato de ser de madeira e vendermos apenas via website, trás certa desconfiança. Compreensível, já que é uma prancha que, só em termos de shape, já é completamente diferente do que normalmente se vê no Brasil. Mas já presenciei várias situações onde a pessoa tem a oportunidade de testar e a resposta sempre é muito positiva, até mesmo pelo fato de que a pessoa entra na água achando que não vai funcionar. 

Um dos casos que achei interessante foi quando gravamos cenas para o filme do Jaime Viudes, onde ele pegou a prancha na praia para testar e antes, eu pedi para ele avaliar o shape de forma bem critica, citando qualquer detalhe que ele considerasse que fosse possível melhorar. Ele comentou algumas situações e eu levei em consideração já que ele já havia testado uma infinidade de shapes e tem um surf de excelente qualidade técnica. Ele ficou por uma hora na água e quanto saiu, falou lá de longe: “Felipe! Esquece tudo que eu te disse, não muda nada, a prancha é perfeita”. Fiquei lisonjeado, claro.

M&A: Sabemos que em países como Austrália, EUA e Havaí, o surf é um esporte respeitado e um mercado consistente. No Brasil, sempre foi mais limitado para quem quer viver do esporte, mas recentemente temos visto um crescimento do público, a profissionalização dos meios de comunicação e diversos atletas com destaque internacional.

Neste contexto, acredita que o Brasil tem conseguido construir uma cultura sólida no surf? Em sua opinião, qual perspectiva para este mercado?

Siebert: Apesar de a Siebert fazer parte deste mercado, o tempo todo nós tentamos fugir do rótulo de “surf”, prefiro que sejamos vistos mais como “life style” do que dentro do mercado do surf, que na minha visão, como quase na maioria dos ramos, as grandes marcas conseguem estragar tudo que botam a mão. 

Os produtos perdem a identidade, são trabalhados por pessoas que não tem conhecimento do assunto, mas são muito bons em marketing e vendas. O Brasil segue a mesma tendência mundial: WCT, Medina, etc... Nada disso me interessa muito e não faz parte do que eu acompanho e considero surf de verdade. Por sorte uma minoria procura algo a mais daquilo que é imposto.

Matéria repoduzida do blog Madeira & Água

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